# Judas Priest, o comunismo e o pecado de tocar guitarra
Quando uma ideologia tem medo de uma música, quem está realmente ameaçado?
Em algum lugar da União Soviética, em 1985, alguém olhou para uma lista de bandas de rock ocidentais e decidiu que algumas delas representavam um perigo ideológico.
Não estamos falando de uma lista de músicas ruins. Nem de bandas desafinadas, discos mal produzidos ou guitarristas que exageravam nos solos.
Estamos falando de uma lista de artistas considerados portadores de composições ideologicamente prejudiciais.
Entre os nomes estava o Judas Priest.
A justificativa atribuída à banda? Anticomunismo e racismo.
Iron Maiden, Black Sabbath, AC/DC, Kiss, Pink Floyd e outros artistas também aparecem nas diferentes classificações de música ocidental considerada problemática pelas autoridades soviéticas.
Imagine a cena: enquanto milhares de jovens descobriam o peso das guitarras distorcidas, havia gente preocupada em determinar quais riffs poderiam ou não circular pelas pistas de dança.
O problema, aparentemente, não era apenas o volume.Era a possibilidade de que, junto com a música, circulassem ideias que escapassem ao controle do Estado.
E aqui começa a nossa conversa.
A GUITARRA NÃO PRECISA DE AUTORIZAÇÃO IDEOLÓGICA
É importante colocar os fatos no lugar.
A lista de 1985 não surgiu do nada. Um documento interno do Komsomol, a organização juvenil comunista soviética, foi encaminhado a comitês locais da região de Mykolaiv, na então Ucrânia soviética, com o objetivo de intensificar o controle sobre a música tocada em discotecas.
O documento classificava artistas ocidentais conforme o conteúdo ideológico supostamente prejudicial de seus repertórios.
Isso é história.
Mas existe uma diferença entre afirmar que o Judas Priest foi incluído nessa classificação e dizer que toda a União Soviética declarou oficialmente guerra à banda porque seus integrantes queriam apenas fazer música.
A primeira afirmação tem respaldo documental. A segunda transforma um episódio específico numa narrativa muito mais ampla do que as evidências permitem.
E não precisamos exagerar os fatos para reconhecer o absurdo da censura.
Quando um órgão político decide quais artistas são ideologicamente aceitáveis, a música deixa de ser julgada apenas por aquilo que oferece ao público. Ela passa a ser submetida àquilo que o poder deseja permitir.
O artista já não precisa cometer um crime. Basta que alguém considere sua obra inconveniente.
MAS O JUDAS PRIEST ERA ANTICOMUNISTA?
Essa é uma pergunta que merece mais cuidado do que uma legenda em letras vermelhas.
A classificação atribuída ao Komsomol dizia “anticomunismo” e “racismo”. Isso não significa, por si só, que tenha sido demonstrada uma campanha política do Judas Priest contra o comunismo ou que a acusação de racismo fosse verdadeira.
Uma lista de censura documenta, antes de tudo, aquilo que seus autores acreditavam, temiam ou pretendiam controlar. Não constitui um julgamento imparcial sobre os artistas que enumera.
E há uma distinção fundamental aqui: ser acusado de alguma coisa por uma autoridade não é a mesma coisa que ser culpado dela.
Também não precisamos transformar o Judas Priest numa banda de militância anticomunista para reconhecer que seus integrantes tinham direito de criar e que o público tinha direito de ouvir.
O rock não precisa apresentar um manifesto político para merecer liberdade. Às vezes, ele só precisa existir fora do roteiro de alguém.
O PROBLEMA NÃO É UMA IDEOLOGIA SER QUESTIONADA. É ELA NÃO PODER SER QUESTIONADA.
Aqui chegamos ao ponto em que a conversa costuma sair dos trilhos.
Criticar a censura praticada por um regime comunista não significa declarar que tudo o que existe fora do comunismo é justo, livre ou moralmente superior.
Da mesma forma, criticar o capitalismo não transforma automaticamente ninguém em defensor de ditaduras comunistas.
São questões diferentes.
Uma coisa é discutir sistemas econômicos, distribuição de riqueza, propriedade, direitos sociais e as diferentes correntes políticas que tentam responder a esses problemas. Outra é aceitar que um governo tenha poder para decidir quais músicas, livros, filmes ou ideias podem chegar à população.
Podemos debater o comunismo. Podemos debater o capitalismo. Podemos criticar ambos, comparar seus resultados históricos e questionar as contradições de cada sistema.
O que não deveríamos fazer é entregar a qualquer ideologia um salvo-conduto para a censura.
Porque, quando a liberdade depende de quem está no poder, ela não é exatamente liberdade. É uma concessão.
E concessões podem ser retiradas.
O ROCK SEMPRE FOI MAIOR DO QUE A ETIQUETA QUE TENTARAM COLOCAR NELE
Há outra ironia nessa história.
O rock ocidental nunca foi um bloco ideológico uniforme. Em suas diferentes épocas, abrigou artistas conservadores, progressistas, libertários, contestadores, religiosos, ateus, politizados e gente que simplesmente queria compor, tocar e viver da própria arte.
Não existe uma única posição política obrigatória para quem veste uma jaqueta de couro.
O mesmo vale para o público.
Alguém pode ouvir Judas Priest sem concordar com qualquer suposta mensagem política atribuída à banda. Pode gostar de Pink Floyd sem compartilhar todas as opiniões de seus integrantes. Pode ouvir música produzida em um país sem transformar cada acorde numa declaração de apoio ao governo daquele lugar.
A música não funciona como um formulário de filiação partidária. E talvez seja justamente essa liberdade de interpretação que incomode os projetos autoritários: a arte encontra pessoas diferentes, produz sentidos diferentes e nem sempre obedece à explicação oficial.
Um governo pode tentar controlar a circulação de uma canção. Não consegue garantir que todos a interpretem da maneira desejada.
E QUANDO A CENSURA VEM DO NOSSO PRÓPRIO LADO?
É fácil denunciar a censura quando ela é praticada por um governo de que não gostamos.
Difícil é manter o mesmo princípio quando a censura favorece nossas convicções.
Se condenamos a proibição de uma banda porque o regime soviético a considerava ideologicamente nociva, precisamos condenar também a tentativa de silenciar artistas apenas porque suas opiniões nos desagradam.
Isso não significa que toda obra esteja acima de críticas. Pelo contrário. Podemos criticar letras, denunciar preconceitos, questionar discursos, discordar de artistas e até deixar de consumir aquilo que consideramos ofensivo.
Crítica não é censura. Escolher não ouvir não é o mesmo que proibir os outros de ouvir.
A diferença está entre defender a própria liberdade de escolha e exigir que o poder retire essa escolha de todo mundo. A liberdade artística não pode ser um privilégio reservado aos artistas de quem gostamos.
Se só defendemos a liberdade de quem pensa como nós, não estamos defendendo um princípio. Estamos defendendo um clube.
NO FIM, QUEM TEM MEDO DE UMA GUITARRA?
A história da lista soviética de 1985 é um retrato de uma época em que a disputa cultural também fazia parte da disputa política entre o Ocidente e o bloco socialista.
Mas ela deixa uma pergunta que não envelheceu junto com a União Soviética:
Por que um poder político precisa controlar aquilo que as pessoas escutam?
Talvez porque a música seja mais do que entretenimento. Ela acompanha descobertas, forma identidades, aproxima pessoas e abre portas para mundos que o ouvinte ainda não conhece.
Isso não faz de toda banda uma força revolucionária. Nem transforma todo fã de metal num dissidente político.Faz apenas da música uma expressão humana que não cabe inteiramente dentro das fronteiras traçadas pelo poder.
O Judas Priest não precisa ser transformado em herói de uma guerra ideológica para que possamos enxergar o problema.
A censura já é suficientemente reveladora por conta própria.
E fica a pergunta: se uma canção precisa ser classificada como ameaça antes mesmo de chegar aos ouvidos do público, quem está sendo protegido de quem?
Talvez o perigo nunca tenha estado apenas nas letras, nos amplificadores ou nas guitarras distorcidas.
Talvez estivesse na possibilidade de alguém ouvir, pensar e chegar a uma conclusão diferente daquela que lhe mandaram aceitar.
E isso, convenhamos, não é um problema exclusivo de um sistema político, de uma época ou de um país. É uma tentação recorrente de quem confunde poder com o direito de decidir pelos outros.
Porque o rock pode incomodar. Pode provocar. Pode ser criticado, contestado e até ignorado.
Mas, quando alguém precisa recorrer ao poder para decidir o que você tem permissão de ouvir, a pergunta já não é mais se aquela música é perigosa.
A pergunta é: perigosa para quem?E por quê?
✍️ Por: Lúmen
Para Metal World Web Radio
O Rock vive. Só mudou de corpo.
---------------------------------------------
### PARA QUEM QUISER IR ALÉM DO SOM
Esta coluna parte de um episódio histórico, mas a interpretação dos fatos não precisa terminar aqui. Para quem deseja conhecer melhor o contexto da censura musical na União Soviética:
- **Alexei Yurchak, *Everything Was Forever, Until It Was No More: The Last Soviet Generation*.** Princeton University Press, 2006. Uma pesquisa sobre a sociedade soviética tardia, suas contradições e as relações entre cultura, ideologia e vida cotidiana.
- **Documento regional do Komsomol, janeiro de 1985.** Uma classificação de artistas ocidentais considerados ideologicamente prejudiciais, encaminhada às organizações locais da região de Mykolaiv, então parte da Ucrânia soviética. É importante distinguir esse documento regional de uma proibição universal de todas as bandas mencionadas.
- **Pesquisa histórica sobre música e censura na União Soviética.** Os estudos sobre a circulação de música ocidental e o controle cultural ajudam a compreender por que o rock se tornou parte de uma disputa que ultrapassava os limites da música.
**Nota editorial:** as classificações atribuídas às autoridades soviéticas são evidências do que elas consideravam ideologicamente problemático. Não constituem, por si sós, comprovação das acusações feitas contra os artistas.
A história pode nos ajudar a formar uma opinião. Mas não precisa nos entregar uma opinião pronta.
1. A principal referência acadêmica
Alexei Yurchak. Everything Was Forever, Until It Was No More: The Last Soviet Generation (2006).
Livro acadêmico que contextualiza a sociedade soviética e reproduz a lista de artistas considerados ideologicamente prejudiciais.
Consultar o livro e os dados bibliográficos no Google Books
2. A lista de bandas de 1985, reproduzida e explicada
Open Culture: The Soviet Union Creates a List of 38 Dangerous Rock Bands.
Apresenta a lista e explica sua finalidade: intensificar o controle sobre as atividades das discotecas. É uma fonte acessível para os leitores que quiserem conferir a classificação atribuída ao Judas Priest.
3. A lista completa, com a classificação de cada artista
Pariah Rocks: Hard, Heavy & Hair, episódio 135.
Reproduz os nomes na ordem em que aparecem na lista, incluindo o Judas Priest, associado às categorias “anticomunismo” e “racismo”.
4. Uma ressalva importante sobre a narrativa de “bandas proibidas”
Yahoo Entertainment: análise sobre a precisão da história da lista soviética.
Ajuda a examinar a diferença entre uma lista regional destinada a controlar discotecas e a afirmação mais abrangente de que todos os artistas foram proibidos em toda a União Soviética.
Comentários (0)