🎸 Rock tem que tomar partido?
A história contestadora do gênero e a cobrança para que artistas assumam posições políticas
De “Inútil”, do Ultraje a Rigor, às manifestações políticas de Tom Morello e Roger Moreira, uma investigação sobre rebeldia, liberdade artística e a expectativa de que todo roqueiro tenha lado, bandeira e discurso.
1. Se é rock, tem que ser contestador?
Imagine a cena.
Um guitarrista sobe ao palco, conecta seu instrumento, pisa no pedal e dispara um riff que atravessa milhares de pessoas. A plateia responde, os amplificadores rugem e, por alguns minutos, tudo parece suspenso. O artista tem uma multidão diante de si, uma voz que alcança milhões de ouvintes e uma plataforma que muita gente gostaria de utilizar para transmitir suas próprias convicções.
Então surge a pergunta: por que ele não aproveita essa oportunidade para se posicionar politicamente?
Para alguns, a resposta parece evidente. O rock nasceu associado à rebeldia, desafiou convenções e ajudou a questionar estruturas sociais. Portanto, artistas que carregam essa tradição deveriam assumir posições diante dos problemas do mundo.
Essa interpretação tem raízes históricas reais. O rock participou de movimentos culturais, dialogou com lutas sociais e serviu de instrumento para críticas ao racismo, à guerra, à censura, às desigualdades e ao autoritarismo. No Brasil, especialmente durante a transição da ditadura militar para a democracia, muitas bandas transformaram o cotidiano político em matéria-prima para suas canções. Pesquisas acadêmicas identificam essa relação entre música, juventude, liberdade e participação pública. [1]
Mas existe uma diferença importante entre reconhecer essa história e estabelecer uma obrigação universal para todos os músicos.
O rock tem uma tradição de contestação. Isso significa que todo roqueiro precisa contestar as mesmas coisas, defender as mesmas ideias ou apoiar os mesmos políticos?
É justamente nessa passagem, da história para a obrigação, que começa a nossa investigação.
2. Antes de contestar o sistema, o rock já estava quebrando convenções
Para entender por que a contestação se tornou tão associada ao rock, precisamos voltar às suas origens.
O rock and roll ganhou projeção nos Estados Unidos durante a década de 1950, a partir de tradições musicais que incluíam o rhythm and blues, o gospel e o country. A contribuição de artistas negros, como Chuck Berry e Little Richard, foi fundamental para a formação do gênero, embora as narrativas populares tenham frequentemente privilegiado artistas brancos em sua história.
A música também surgiu em uma sociedade marcada pela segregação racial. Sua circulação entre públicos de diferentes origens ajudou a expor tensões culturais de uma época em que a separação racial continuava presente na vida cotidiana americana. [2]
Mas nem toda essa transformação aconteceu por meio de discursos políticos explícitos.
O rock também provocava por sua sonoridade, pela maneira de dançar, pela presença de artistas no palco e pela autonomia que parecia oferecer a uma juventude cada vez mais identificada como um grupo cultural próprio.
Para pais conservadores, educadores e setores mais tradicionais da sociedade, aquele som podia representar uma ruptura com os comportamentos considerados apropriados. A guitarra distorcida ainda não precisava falar sobre eleições para incomodar quem preferia que os jovens permanecessem comportados.
Na década de 1960, essa relação ganhou novas dimensões. A contracultura, os movimentos pelos direitos civis, as manifestações contra a Guerra do Vietnã e as transformações nos costumes aproximaram diferentes setores da música de debates sociais e políticos.
Artistas e movimentos passaram a utilizar canções, festivais e performances como espaços de expressão e mobilização. Em algumas situações, a música acompanhou manifestações coletivas; em outras, ajudou a difundir ideias e a questionar valores estabelecidos.
O punk, na década seguinte, radicalizou determinadas formas de contestação. A crítica à autoridade, à sociedade de consumo e às convenções musicais tornou-se parte da identidade de várias cenas punk, embora seus integrantes também apresentassem diferenças ideológicas importantes.
O ponto central é que o rock não nasceu com um programa político único.
Sua história reúne artistas que desafiaram costumes, outros que se engajaram em causas específicas e muitos que encontraram na música um espaço de expressão pessoal. O próprio significado da rebeldia mudou de acordo com o país, a geração e as circunstâncias.
Em determinados momentos, ser contestador significava desafiar uma autoridade política. Em outros, significava confrontar o conservadorismo social, questionar o racismo, rejeitar padrões culturais ou simplesmente não aceitar as regras de uma indústria musical.
A rebeldia sempre teve muitas vozes. Nem todas cantavam a mesma letra.
3. No Brasil, o rock encontrou uma sociedade em transformação
A relação entre rock e política ganhou uma dimensão particularmente importante no Brasil durante a década de 1980.
O país atravessava a transição da ditadura militar para a democracia. A abertura política, a mobilização popular, a crise econômica e a campanha pelas eleições diretas para presidente compunham o cenário de uma geração que procurava novas maneiras de expressar suas expectativas e frustrações.
Foi nesse ambiente que bandas como Legião Urbana, Titãs, Barão Vermelho, Paralamas do Sucesso e Ultraje a Rigor ganharam destaque.
Suas canções abordavam desde os problemas do país e o funcionamento das instituições até as angústias individuais, as relações sociais e as contradições da vida urbana. A linguagem direta, a ironia e a atitude irreverente ajudaram a transformar o rock nacional em uma das vozes culturais daquele período. [1]
Um exemplo particularmente interessante é “Inútil”, do Ultraje a Rigor.
Lançada em 1983, a música transformava as dificuldades brasileiras em uma crítica bem-humorada, mas incisiva. Seu verso de abertura questionava a capacidade da população de escolher o próprio presidente, uma referência que ganhou força no contexto da campanha pelas Diretas Já.
A canção chegou aos palanques e se tornou parte da trilha sonora daquele movimento, ainda que sua trajetória até o público tenha passado por obstáculos relacionados à censura. [3]
Aqui existe uma ironia histórica que merece atenção.
Décadas depois, Roger Moreira, vocalista do Ultraje a Rigor, se tornaria conhecido também por suas manifestações políticas contra o PT e por suas opiniões conservadoras. Suas posições públicas passaram a integrar o debate sobre a relação entre artistas, ideologia e público.
Como conciliar essas duas imagens?
Talvez a resposta esteja em algo que às vezes esquecemos: uma canção pode questionar o poder sem estabelecer uma fidelidade permanente a determinado partido. E um artista pode mudar de opinião, rever suas convicções ou interpretar os problemas políticos a partir de outra perspectiva ao longo da vida.
O contexto da composição de “Inútil” não desaparece porque o compositor passou a defender posições diferentes décadas depois. Da mesma forma, a história da música não determina automaticamente o que Roger precisa pensar hoje.
É possível investigar a trajetória política de um artista, comparar suas declarações e questionar eventuais contradições. O que não faz sentido é presumir que uma música escrita nos anos 1980 deva funcionar como um contrato ideológico válido para o resto da vida de quem a compôs.
A história não congela as pessoas na fotografia de um único momento.
4. Tom Morello: quando o posicionamento faz parte do projeto artístico
Se Roger Moreira representa um exemplo de artista cuja trajetória pública inclui posições políticas bastante diferentes das defendidas por parte do público roqueiro, Tom Morello oferece outro tipo de caso.
Guitarrista do Rage Against the Machine, Morello construiu uma carreira marcada pela aproximação entre música pesada, crítica social e ativismo político.
Formado na Califórnia em 1991, o Rage Against the Machine incorporou às suas canções críticas ao poder econômico, ao racismo, à violência estatal e a diferentes formas de opressão. Sua atuação não ficou restrita às letras: a banda também participou de manifestações e demonstrou apoio a movimentos sociais.
No Brasil, essa relação ficou evidente em 2010, quando o grupo se apresentou no festival SWU, em Itu, no interior de São Paulo. Durante o show, Zack de la Rocha dedicou “People of the Sun” ao Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra, enquanto Morello usou um boné do movimento durante “Wake Up”. [4]
Para Morello, a política não é um assunto que surgiu ocasionalmente em suas redes sociais. Ela faz parte de sua identidade artística há décadas.
Em entrevista sobre as críticas que recebe de fãs que preferem que ele evite a política, o guitarrista defendeu seu direito de se expressar mesmo depois de pegar uma guitarra. Sua visão é coerente com uma obra que, desde o início, apresenta conteúdo político de forma explícita. [5]
Em outubro de 2026, Morello voltou a demonstrar esse posicionamento ao publicar uma mensagem de apoio a Luiz Inácio Lula da Silva. Em 3 de outubro, compartilhou uma imagem com a inscrição “LULA26”. Em 13 de outubro, publicou um vídeo no qual pediu votos para Lula e associou seu apelo à defesa de direitos, do meio ambiente e ao combate ao que descreveu como fascismo, exploração e poder das grandes corporações. [6]
A declaração é pública e direta. Não há motivo para disfarçar o que o músico fez ou para fingir que seu posicionamento não tem relação com a política.
Mas há uma distinção importante: Morello escolheu usar sua voz pública dessa maneira. Seu histórico artístico ajuda a explicar por que essa escolha se encaixa em sua trajetória.
Isso não transforma sua decisão em uma regra universal para todos os músicos.
A liberdade de expressão que permite a Morello defender um candidato também permite que outro artista critique esse candidato, apoie um adversário ou prefira não fazer campanha eleitoral.
Podemos discordar das posições de qualquer um deles e discutir seus argumentos. O que não podemos deduzir automaticamente é que todos os demais artistas estejam descumprindo alguma obrigação por não reproduzirem o mesmo comportamento.
O direito de se posicionar não estabelece um dever de concordar.
5. Roger Moreira e o direito de contrariar as expectativas
Roger Moreira oferece um contraponto interessante justamente porque sua trajetória musical é anterior à sua conhecida atuação política nas redes sociais.
O Ultraje a Rigor ajudou a construir o rock brasileiro dos anos 1980 com ironia, irreverência e críticas ao país. “Inútil” é uma lembrança evidente desse passado, mas a banda nunca se resumiu a uma única canção ou a uma única pauta política.
Em entrevistas recentes, Roger falou abertamente sobre suas convicções, as críticas que recebe por elas e os conflitos que surgem quando o público passa a avaliar um artista principalmente por sua posição ideológica. [7]
A situação revela um problema que vai além da esquerda ou da direita.
Quando um artista expressa uma opinião política, parte do público pode passar a reinterpretar toda a sua obra a partir daquela declaração. Uma música antes considerada divertida ou inteligente pode ser rejeitada porque seu compositor defende uma posição que o ouvinte desaprova.
O caminho inverso também acontece. Um artista pode ser elevado à condição de porta-voz de uma causa e receber aprovação não apenas pelo trabalho musical, mas também por representar um grupo político.
Em ambos os casos, existe o risco de a avaliação artística se tornar secundária.
Isso não significa que a postura pública de um músico seja irrelevante. Artistas têm responsabilidade por suas declarações, e o público tem todo o direito de criticar o que eles dizem ou fazem. A liberdade de expressão não elimina a possibilidade de discordância nem protege ninguém de críticas.
Mas existe uma diferença entre criticar uma opinião e exigir que um artista adote outra para continuar sendo considerado autêntico.
Se Roger critica o PT, essa posição pode ser examinada, questionada e confrontada com seus argumentos. Se Tom Morello apoia Lula, sua declaração também pode ser analisada e contestada.
O debate democrático depende justamente dessa possibilidade.
O que não precisamos fazer é transformar a história do rock em um tribunal no qual cada artista deve apresentar uma carteira de filiação ideológica para provar que merece permanecer no palco.
A música pode ser julgada por sua composição, sua execução, sua criatividade e seu significado cultural. As declarações políticas podem ser avaliadas por seus próprios méritos. As duas dimensões se relacionam, mas não são idênticas.
6. Rachel Sheherazade e a ideia de que o rock precisa se posicionar
A discussão ganha um exemplo contemporâneo na reação à declaração de James Hetfield sobre o Metallica e a política. Ao defender a ideia de que o rock carrega uma tradição contestadora, Rachel Sheherazade coloca em evidência uma expectativa presente no debate cultural: a de que artistas de um gênero historicamente associado à rebeldia também expressem publicamente suas posições.
Mas existe uma distinção importante nessa discussão. Uma coisa é reconhecer o caráter contestador de muitas obras do rock. Outra é concluir que toda banda precisa assumir uma identidade política coletiva.
O Metallica pode abordar guerra, poder, sofrimento e conflitos humanos em suas músicas sem necessariamente adotar uma posição partidária institucional. Da mesma forma, seus integrantes podem ter opiniões pessoais diferentes, sem que cada declaração individual represente automaticamente a banda inteira.
A questão, portanto, não é decidir se o Metallica é ou não suficientemente contestador. É compreender se a história de um gênero musical estabelece uma obrigação política para todos os artistas que fazem parte dele.
A associação entre rock e contestação não é uma invenção recente. Desde suas origens, o gênero esteve ligado a transformações culturais, conflitos geracionais e questionamentos de convenções. Em determinados períodos, essa postura assumiu uma dimensão explicitamente política.
Entretanto, o que significa dizer que o rock deve se posicionar?
Se a afirmação significa que artistas têm liberdade para questionar o poder, denunciar injustiças e utilizar a música para expressar suas convicções, estamos diante de uma tradição importante.
Se significa que todo músico tem a obrigação de declarar apoio a candidatos, partidos ou correntes ideológicas, a questão muda de natureza.
A contestação não possui uma única direção. Um artista pode questionar um governo de esquerda, outro pode criticar um governo de direita e um terceiro pode concentrar suas críticas em questões sociais, econômicas ou culturais sem estabelecer uma preferência eleitoral.
É possível também que um músico prefira preservar a vida privada, falar apenas por meio das composições ou simplesmente não considerar a política partidária o centro de seu trabalho.
Essas escolhas podem ser discutidas. Não são, por si mesmas, provas de que o artista abandonou o rock.
Existe ainda uma questão importante sobre o próprio significado da palavra contestação.
Questionar uma autoridade não significa necessariamente defender a oposição política organizada. Criticar uma tradição não exige aderir a outra. Rejeitar determinada ideologia não obriga ninguém a abraçar a ideologia contrária.
A rebeldia pode ser dirigida contra diferentes estruturas de poder, inclusive aquelas com as quais o próprio artista simpatiza em outros aspectos.
Por isso, antes de transformar uma tradição cultural em uma obrigação, precisamos perguntar: quem define o objeto da contestação? E quem decide quando um artista deixou de ser contestador?
Se o critério for simplesmente concordar com as posições de quem faz a cobrança, a palavra rebeldia perde parte de sua força. Ela deixa de representar a autonomia de pensamento e passa a funcionar como uma exigência de conformidade.
A ironia é evidente: alguém pode acabar cobrando liberdade de expressão enquanto exige que os outros se expressem de uma maneira predeterminada.
Para avaliar a declaração de Rachel em seus próprios termos, seria importante examinar o vídeo completo e seu contexto, em vez de atribuir à jornalista intenções que não estejam demonstradas. A pergunta histórica, entretanto, permanece válida independentemente de quem a formulou.
O rock tem uma tradição de contestação. Mas essa tradição precisa ser entendida como uma possibilidade de expressão, não como uma obrigação de alinhamento partidário.
7. O silêncio também significa alguma coisa?
Há um argumento recorrente nesse debate: não se posicionar também seria uma posição política.
A frase tem uma lógica que merece consideração. Em determinadas circunstâncias, o silêncio pode ser interpretado como indiferença, prudência, medo, estratégia ou concordância tácita. Quando uma pessoa ocupa uma posição de influência, sua ausência de manifestação também pode ser objeto de questionamento.
Mas não podemos concluir que todo silêncio tenha o mesmo significado.
Um artista pode não comentar um assunto porque não possui informações suficientes, porque considera sua participação pouco útil, porque prefere não misturar sua obra a uma disputa eleitoral ou porque entende que sua contribuição está em outra atividade.
Também pode haver situações em que o silêncio represente uma decisão consciente de não participar de determinada discussão.
Sem conhecer o contexto, não é possível reduzir todas essas possibilidades a uma única explicação.
Além disso, existe uma diferença entre reconhecer que o silêncio produz efeitos e afirmar que toda pessoa tem uma obrigação moral de se manifestar publicamente sobre todos os temas relevantes.
Se um músico apoia uma causa, podemos perguntar por que a considera importante. Se critica um governo, podemos examinar seus argumentos. Se prefere não comentar determinada eleição, podemos discutir os efeitos dessa escolha.
Mas a ausência de uma declaração partidária não demonstra, isoladamente, que o artista deixou de ser autêntico, perdeu sua capacidade crítica ou traiu a história do gênero.
O debate fica mais produtivo quando avaliamos ações concretas e argumentos verificáveis, em vez de tentar descobrir a autenticidade de alguém a partir da quantidade de declarações políticas que publica.
A participação pública pode ser valiosa. A autonomia individual também.
8. O rock pode ser contestador sem obedecer a uma cartilha
Existe uma contradição curiosa em transformar a rebeldia em requisito obrigatório.
A rebeldia pressupõe a possibilidade de questionar normas, recusar expectativas e desafiar autoridades. Quando alguém determina antecipadamente quais posições um artista precisa defender para ser considerado rebelde, a contestação passa a obedecer a uma cartilha.
Isso não significa que toda opinião contrária ao senso comum seja automaticamente corajosa, verdadeira ou bem fundamentada. Ser do contra não é, por si só, uma virtude. Uma declaração pode ser contestadora e ainda assim estar equivocada, ser injusta ou carecer de argumentos.
O que importa é reconhecer que a autenticidade artística não pode ser medida apenas pela concordância ideológica.
O rock pode denunciar abusos de poder, questionar desigualdades, desafiar convenções sociais e criticar partidos. Pode também falar de amor, solidão, ficção científica, fantasia, conflitos pessoais ou simplesmente da vontade de tocar alto e fazer uma boa música.
Uma canção não precisa apresentar uma proposta de governo para ter valor cultural.
Da mesma forma, uma música com conteúdo político não perde automaticamente sua força artística porque seu compositor apoia determinado candidato. O conteúdo, a qualidade e as circunstâncias de cada obra precisam ser examinados individualmente.
A história do rock é rica justamente porque não cabe inteiramente em uma única definição.
O gênero foi incorporado à indústria cultural, tornou-se um negócio global, produziu artistas milionários e ajudou a vender produtos e estilos de vida. Em outros momentos, serviu para denunciar os excessos do próprio sistema que o comercializava.
Alguns músicos fizeram da política uma parte central de sua identidade. Outros preferiram manter o foco na música. Muitos transitaram entre essas possibilidades ao longo da carreira.
Essa diversidade não precisa ser tratada como uma falha histórica. Ela é parte da própria trajetória do gênero.
9. Afinal, rock tem que tomar partido?
Voltemos à pergunta inicial.
A história demonstra que o rock pode ser uma ferramenta de contestação. Suas raízes estão ligadas a transformações culturais profundas, e sua trajetória inclui inúmeros exemplos de artistas que utilizaram a música para expressar críticas sociais e políticas.
No Brasil, a geração do rock dos anos 1980 ajudou a traduzir as angústias de uma sociedade em transformação. Nos Estados Unidos, o Rage Against the Machine construiu uma obra explicitamente política. Em diferentes épocas, artistas de rock desafiaram governos, instituições, preconceitos e convenções.
Esses exemplos não devem ser apagados nem minimizados.
Mas também não justificam a conclusão de que todos os músicos precisam adotar uma posição partidária para pertencer legitimamente ao gênero.
Tom Morello tem o direito de apoiar Lula e de explicar suas razões. Roger Moreira tem o direito de expressar suas críticas ao PT. Rachel Sheherazade tem o direito de defender sua interpretação da história do rock. O público, por sua vez, tem o direito de concordar, discordar, questionar e apresentar argumentos.
A liberdade não pertence exclusivamente a quem pensa como nós.
O ponto central não é decidir qual artista representa o rock verdadeiro. É compreender que a relação entre música e política assume formas diferentes, e que nenhuma delas pode ser reduzida a uma obrigação universal de comportamento.
A contestação pode ser uma escolha artística, uma convicção pessoal ou uma característica central de determinado projeto musical. Não precisa ser uma exigência imposta a todos os integrantes de uma cultura.
Talvez a pergunta mais interessante não seja se o rock precisa tomar partido.
Talvez seja esta: se o rock nasceu associado à liberdade de questionar, até que ponto podemos exigir que todos os seus artistas questionem as mesmas coisas e cheguem às mesmas conclusões?
Uma guitarra pode acompanhar uma manifestação, denunciar uma injustiça ou transformar uma experiência pessoal em música. Pode também fazer alguém esquecer os problemas do dia por alguns minutos.
Essas possibilidades não são necessariamente incompatíveis.
E, quando um artista decide assumir uma posição política, cabe ao público examinar seus argumentos. Quando decide não fazer isso, cabe ao público avaliar a escolha sem presumir automaticamente suas motivações.
O que não faz sentido é transformar a rebeldia em uma obrigação de concordar.
Porque, se para ser contestador um roqueiro precisa primeiro receber autorização sobre o que contestar, talvez a questão já não seja mais a liberdade do rock, mas a liberdade que estamos dispostos a conceder a quem pensa diferente.
E essa, sim, é uma boa pergunta para continuar ecoando depois que o último amplificador for desligado.
FORA DO SOM
História, cultura e reflexão para ouvir além do ruído.
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Fontes e leituras para aprofundamento
1. Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) | Rock nacional foi a voz política da geração dos anos 80
Pesquisa histórica sobre a relação entre o rock brasileiro, a redemocratização e os anseios de liberdade daquela geração.
https://www3.ufmg.br/comunicacao/noticias/rock-nacional-foi-a-voz-politica-da-geracao-dos-anos-80
2. Oxford Academic | All Shook Up: Rock ’N’ Roll and American Society
Estudo sobre as origens do rock and roll, suas raízes musicais negras, a segregação racial e as transformações culturais nos Estados Unidos.
https://academic.oup.com/book/47383
3. Folha de S.Paulo | Como canções de Ultraje, Caetano, Chico e Milton deram o tom das Diretas
Reportagem sobre a participação da música popular na campanha das Diretas Já e a trajetória de “Inútil”, do Ultraje a Rigor.
4. Brasil de Fato | Entrevista com Tom Morello, do Rage Against the Machine
Entrevista sobre a trajetória política do grupo, a relação com movimentos sociais e a maneira como a banda dialoga com públicos de diferentes convicções.
https://nucleopiratininga.org.br/brasil-de-fato-entrevista-tom-morello-do-rage-against-the-machine/
5. Whiplash | Tom Morello sobre fãs contra política na música
Reportagem de janeiro de 2022 que reproduz trechos de uma entrevista do guitarrista à revista Metal Hammer sobre liberdade de expressão e política.
https://whiplash.net/materias/news_723/337837-tommorello.html
6. VEJA | Tom Morello declara apoio a Lula: “Defenda seu futuro contra os fascistas”
Reportagem de 14 de outubro de 2026 sobre a manifestação recente do guitarrista.
7. Terra / Rolling Stone Brasil | A resposta de Roger após Tony Bellotto se dizer decepcionado com sua posição política
Reportagem de julho de 2026 sobre as divergências públicas entre músicos brasileiros e as repercussões de suas posições políticas.
8. Revista MATRIZes, Universidade de São Paulo | Ethos roqueiro, rasuras e conflitos políticos na turnê de Roger Waters no Brasil
Artigo acadêmico sobre os conflitos entre identidade roqueira, posicionamento político e recepção do público.
https://revistas.usp.br/matrizes/pt_BR/article/view/171173
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