cover
Tocando Agora:

E A AMAZÔNIA?

Quando a floresta arde, quem ainda levanta a voz?

E A AMAZÔNIA?
E A AMAZÔNIA? (Foto: Reprodução)

✍️ Por: Lúmen

Para Metal World Web Radio

O Rock vive. Só mudou de corpo.


Em setembro de 2021, dezenas de artistas brasileiros se reuniram em torno de uma causa ambiental. Nomes consagrados da música, representantes de diferentes gerações e estilos emprestaram suas vozes a uma iniciativa que pretendia chamar a atenção do país para a destruição da Amazônia.

O resultado foi a “Canção pra Amazônia”, lançada no Dia da Amazônia, em 5 de setembro, com participação de artistas como Caetano Veloso, Gilberto Gil, Maria Bethânia, Milton Nascimento, Nando Reis, Anavitória, Criolo, Daniela Mercury, Iza e muitos outros.

A música não se limitava a defender árvores. Tratava de garimpo, extração predatória de madeira, ataques aos povos indígenas e criticava expressamente as políticas ambientais do governo Jair Bolsonaro.

A iniciativa foi organizada pelo Greenpeace e pela Relicário Produções, com apoio de organizações socioambientais e indígenas. Segundo os organizadores, o projeto não tinha fins comerciais: os artistas participaram sem receber cachês e cederam suas vozes e imagens.

A mensagem era clara. A floresta precisava de atenção, e a arte poderia ajudar a mobilizar o país.

Cinco anos depois, uma pergunta volta a incomodar.


E a Amazônia?

Os números voltaram a chamar a atenção

Em outubro de 2026, imagens de fumaça, relatos de problemas respiratórios e notícias sobre o avanço dos incêndios voltaram a colocar a Amazônia no centro do debate público.

Segundo o Programa Queimadas do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (INPE), o bioma Amazônia acumulou 11.644 focos de calor entre 1º e 19 de outubro de 2026.

O número precisa ser interpretado com cuidado. Focos de calor são detecções por satélite e não correspondem necessariamente a incêndios distintos. Tampouco medem, por si só, a área efetivamente queimada.

Há outro detalhe importante: a Associated Press informou que os focos no bioma estiveram próximos de mínimas históricas ao longo de 2026, antes de triplicarem após 4 de outubro. A agência também relatou que a fumaça prejudicou a rotina de moradores de Manaus, levando ao cancelamento de aulas em escolas públicas e a recomendações de uso de máscaras.

Portanto, não estamos diante de uma história simples, que possa ser resumida em um único número ou slogan. O cenário envolve uma alta recente, condições climáticas, ação humana, fiscalização ambiental e investigações sobre as causas dos incêndios.

Os dados oficiais podem ser consultados no Programa Queimadas do INPE. A situação atual também foi documentada pela Associated Press, em reportagem publicada em outubro de 2026.

A floresta continua sendo um assunto urgente. A questão é como essa urgência chega ao debate nacional.


O coro de 2021 ainda está afinado?

É aqui que a discussão fica interessante.

Em 2021, uma campanha musical de grande visibilidade relacionou a defesa da Amazônia às críticas ao governo federal. Em 2026, diante de novos incêndios, surgiu nas redes sociais e em reportagens a cobrança pela ausência de uma mobilização artística nacional de alcance semelhante.

A crítica ganhou força em meio à disputa política brasileira. Parlamentares e comentaristas questionaram por que artistas que haviam participado de campanhas ambientais anteriores não estariam promovendo uma iniciativa comparável diante da crise atual.

Mas precisamos distinguir duas coisas: uma cobrança pública e a comprovação de que todos os artistas cobrados permaneceram em silêncio.

A segunda afirmação exige uma investigação individual. Publicações, entrevistas, campanhas, manifestações presenciais e iniciativas coletivas precisam ser examinadas antes de se chegar a uma conclusão.

E a apuração já revela um contraponto importante.

A artista e influenciadora amazonense Isabelle Nogueira se manifestou publicamente em outubro de 2026, defendendo medidas permanentes de prevenção às queimadas, fiscalização ambiental e políticas públicas para proteger a população. Sua manifestação foi noticiada pelo BNC Amazonas.

Também houve mobilização de organizações locais em defesa da Amazônia e contra os incêndios. A crise, portanto, não foi ignorada por todos os artistas, movimentos sociais ou veículos de comunicação.

Isso não elimina a pergunta inicial. Apenas nos obriga a formulá-la de maneira mais precisa:

Houve, em 2026, uma campanha artística nacional com alcance comparável ao da “Canção pra Amazônia”, lançada em 2021?

Essa é uma questão legítima. E respondê-la exige comparar iniciativas concretas, alcance público e participação dos artistas, não apenas contar postagens encontradas nas redes sociais.

A indignação também tem calendário político?

A pergunta que motivou esta reflexão vai além da existência de uma campanha musical.

Ela trata da possível seletividade da indignação pública.

Em 2021, a defesa da Amazônia foi acompanhada de críticas explícitas ao governo Bolsonaro. Em 2026, quando a crise das queimadas voltou a ganhar intensidade, o governo federal era outro, e o debate ambiental passou a ocorrer em um contexto político diferente.

Seria possível que a disposição de artistas e celebridades para se manifestar variasse conforme sua afinidade com o governo de ocasião?

A hipótese merece ser investigada. Mas não pode ser tratada como conclusão antes da análise das evidências.

O silêncio público de uma pessoa, por si só, não demonstra hipocrisia, muito menos prova que ela tenha recebido dinheiro para deixar de protestar. Para sustentar uma acusação financeira, seriam necessárias evidências específicas.

Da mesma forma, a ausência de uma campanha musical não significa necessariamente ausência de preocupação ambiental. Artistas podem apoiar projetos locais, participar de iniciativas discretas ou simplesmente não se manifestar publicamente sobre todos os assuntos que consideram importantes.

Ainda assim, há uma questão que permanece válida: quando alguém transforma uma causa em bandeira pública, é natural que sua coerência seja questionada ao longo do tempo.

Se a preservação ambiental é um princípio, ela deveria continuar sendo relevante quando o governo criticado deixa o poder.

A cobrança precisa valer para todos. Artistas, influenciadores, jornalistas, políticos e cidadãos comuns.


A floresta não vota

Uma árvore não sabe qual partido venceu uma eleição. Um rio não muda de lado depois de uma posse presidencial. E os animais que perdem seu habitat não têm como distinguir se a destruição aconteceu sob um governo de esquerda, de direita ou de qualquer outra orientação.

A política importa, evidentemente.

Decisões governamentais podem influenciar a fiscalização, o orçamento destinado à prevenção, o combate a atividades ilegais e a capacidade de resposta aos incêndios. Esses fatores devem ser analisados com dados, transparência e critérios consistentes.

A própria cobertura da crise atual mostra a complexidade do cenário. A Associated Press relatou que autoridades brasileiras investigavam a possibilidade de incêndios deliberadamente provocados, inclusive diante de padrões observados em áreas protegidas. A reportagem ressalvou que não estava claro quem teria iniciado os incêndios ou quais seriam suas motivações.

Também destacou o papel das condições mais secas, das mudanças climáticas e de atividades humanas, como a abertura de áreas para pastagens e o desmatamento.

Não seria correto atribuir todos os incêndios a uma única causa, tampouco transformar uma investigação em prova de uma motivação política ainda não estabelecida.

A mesma exigência deve orientar a avaliação dos governos: examinar resultados, decisões, fiscalização e responsabilidades, sem alterar os critérios de acordo com a preferência partidária.

Se criticamos um governo quando os indicadores pioram, devemos estar dispostos a examinar os mesmos indicadores quando outro está no poder. Se celebramos uma melhora, devemos reconhecer os resultados independentemente de quem os tenha produzido.

Isso não significa ignorar diferenças entre políticas públicas ou atribuir a todos os governos a mesma responsabilidade.

Significa não trocar os critérios de análise conforme a conveniência.

Quem cobra também precisa aceitar a cobrança

Há outro aspecto que merece atenção.

A crise ambiental pode ser utilizada como instrumento de disputa política. A oposição pode apontar falhas do governo; o governo pode apresentar medidas de resposta; comentaristas podem questionar a atuação de celebridades; e as próprias celebridades podem criticar a cobertura da imprensa.

Nada disso é, por si só, ilegítimo.

O problema começa quando a discussão deixa de priorizar a floresta e passa a servir exclusivamente aos interesses de quem disputa o poder.

Em outubro de 2026, a Associated Press observou que o aumento das queimadas se tornou combustível para confrontos políticos, enquanto a proteção florestal e as mudanças climáticas recebiam pouca atenção na campanha eleitoral.

Esse é um ponto que merece reflexão: quando uma crise ambiental se transforma em munição partidária, corre-se o risco de discutir mais quem ganha com o problema do que como resolvê-lo.

A coerência não pode ser uma exigência reservada aos adversários.

Se cobramos artistas por suas manifestações, precisamos reconhecer os que efetivamente se pronunciam. Se cobramos jornalistas, devemos avaliar o trabalho que publicam. Se cobramos governos, precisamos examinar tanto os indicadores ambientais quanto as medidas adotadas para enfrentar a crise.

E, acima de tudo, precisamos manter a mesma disposição para cobrar independentemente de quem esteja no poder.


E a Amazônia?

Talvez a pergunta mais importante não seja por que determinada celebridade publicou ou deixou de publicar uma mensagem.

Talvez seja por que precisamos esperar que pessoas famosas cantem sobre um problema para que ele receba nossa atenção.

Artistas podem ampliar debates, mobilizar recursos e dar visibilidade a causas importantes. A campanha de 2021 é um exemplo concreto dessa capacidade.

Mas a responsabilidade ambiental não pode depender exclusivamente da disposição de celebridades para se manifestar. Ela exige acompanhamento dos dados, políticas públicas consistentes, fiscalização, prevenção e cobrança da sociedade.

A Amazônia não pertence a um partido. Sua preservação não deveria ser uma causa sazonal, condicionada à conveniência de governos, artistas ou comentaristas.

Se a indignação ambiental só ganha força quando pode ser dirigida contra determinado adversário político, precisamos perguntar se estamos defendendo um princípio ou apenas escolhendo o momento mais conveniente para defendê-lo.

Essa pergunta vale para todos os lados.

Não temos evidências para afirmar que artistas tenham recebido dinheiro para permanecer em silêncio. Também não seria justo afirmar que todos se calaram. Mas é legítimo investigar se a mobilização pública em torno da floresta apresenta diferenças significativas entre contextos políticos distintos.

Para isso, precisamos de fatos, comparações e critérios claros.

Quando a floresta arde, a pergunta não deveria ser apenas quem ganha politicamente com a fumaça.

Deveria ser o que está acontecendo, por que está acontecendo, quais são as responsabilidades envolvidas e o que pode ser feito para impedir que continue.


E a Amazônia?

Continua precisando de atenção. Não apenas em anos eleitorais, não apenas quando um governo está sob críticas e não apenas quando uma campanha se torna popular.

Independentemente de quem esteja no poder.


Fontes para consulta

INPE, Programa Queimadas: Estatísticas oficiais de focos de calor.

Greenpeace Brasil: Canção pra Amazônia, manifesto artístico lançado em 5 de setembro de 2021.

Associated Press, outubro de 2026: Autoridades investigam aumento de incêndios na Amazônia em meio a disputas políticas.

BNC Amazonas, 14 de outubro de 2026: Isabelle Nogueira defende prevenção às queimadas e políticas permanentes para a Amazônia.

Greenpeace Brasil: Artistas sobrevoam a Amazônia e testemunham a destruição causada pelo fogo e pelo desmatamento, em 2021.


**Nota editorial: os focos de calor são indicadores de detecção por satélite, não uma medida direta de área queimada. Comparações históricas devem utilizar períodos equivalentes e a mesma metodologia. A ausência de manifestações públicas localizadas não comprova ausência de atuação ou de preocupação pessoal.

Comentários (0)